2025
pedra crochetada com arame de latão
dimensões variáveis
“Igatu flutua” foi o que eu ouvi de um morador de Igatu. Ele era a terceira geração de uma família que se estabeleceu na Chapada Diamantina por conta do garimpo. Diferente de outros jovens da sua idade, ele permanecia na vila e contava, com certa revolta e melancolia, que o avô apesar de ter revirado cada pedaço de terra que podíamos ver, não enriqueceu. Tinha sim, uma casinha modesta, conseguiu criar filhos e netos, e agora contava com o serviço público para lidar com uma doença grave. Não foi por ganância nem por má administração dos diamantes, uma boa parte do que era encontrado ficava com uma família que nunca precisou encostar numa bateia, que nunca havia se curvado ao peso ou a autoridade e que mesmo assim aumentavam seus ganhos ano após ano, não importasse a atividade econômica: escravidão, garimpo ou turismo.
Igatu parece se equilibrar na ponta de uma rocha. O cascalho que antes sustentava a vila foi revirado, removido, deslocado por inúmeras mãos. E hoje, seus descendentes vivem o equilíbrio instável, costurando outros caminhos em relações, por vezes desiguais, que vão oscilando entre delicado, frágil e precário.
Faz dois anos que eu carregava essa frase “Igatu flutua” além de tantas outras coisas que me atravessaram durante a residência artística no Mirante Xique-xique em 2023. A vila também tinha revirado meus planos. Não era mais possível achar que eu chegaria de outro contexto e conseguiria seguir um cronograma pré-estabelecido. Igatu exige respeito e qualquer coisa que eu imaginava fazer não dava conta da dimensão dessas vivências. As caminhadas eram longas e a comunidade, bastante generosa, estabelecia relações dinâmicas e complexas assim como a paisagem, que se impunha por sua grandeza mas que também estava sujeita a mudanças repentinas ao longo do dia.
Existe uma beleza nessa linha tênue que sustenta essa cidade feita de pedra bruta. Uma linha que pode ser tecida nas histórias, no bilro, no crochê ou mesmo no arame de latão (como é o caso do trabalho que desenvolvi na residência artística) e vai ganhando estrutura e dimensão. É o trabalho do dia-a-dia, aos poucos, que vai sustentando a pedra que responde ao mais delicado sopro.